Um em cada dez brasileiros é portador de doenças renais e não sabe
“Milhões de pessoas sofrem com problemas renais. A grande dificuldade para evitar que se tornem crônicos é que muitos não sabem que estão doentes e, em conseqüência, não buscam tratamento. O diagnóstico precoce é fundamental para impedir que se desenvolva uma doença renal crônica.”
A afirmação é do presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), Emmanuel de Almeida Burdmann.
A entidade realiza diversas campanhas nacionais que incluem mutirões para avaliar as funções renais em adultos e crianças, por meio da dosagem de creatinina no sangue, substância que serve como indicativo do mau funcionamento do órgão. Outra preocupação é com a própria classe médica que, segundo constatam pacientes e especialistas, não está preparada para fazer um diagnóstico a tempo de impedir que a DRC (disfunção renal crônica) se instale, resultando na falência lenta, mas inexorável, desses órgãos vitais.
Os rins mantêm a estabilidade dos líquidos do organismo e são responsáveis pela remoção das substâncias indesejáveis do nosso corpo. Atuam como filtro, eliminando ureia, além de reabsorver a albumina e manter a quantidade necessária de sódio, potássio, cálcio, e também produzem os
hormônios que controlam a pressão arterial, o volume do cálcio e fósforo e a formação de hemácias no sangue.Por estas razões, o funcionamento dos rins está diretamente ligado ao equilíbrio de outras funções do organismo, ao mesmo tempo em que sofre com o seu desequilíbrio.
Quando os rins não funcionam adequadamente, ocorre a hipertensão, que sobrecarrega os rins e isso, por sua vez, leva ao aumento da pressão, o que resulta em um círculo perigoso para o organismo. Por isso, o controle da pressão arterial é um dos pontos principais na prevenção da insuficiência renal.
Qualquer pessoa com diabetes também corre o risco de ter as funções dos rins comprometidas, mesmo que isso demore até 30 anos para aparecer. As primeiras manifestações são a perda de proteínas na urina (proteinúria), o aparecimento de pressão arterial alta e o aumento da ureia e da creatinina do sangue.
A anemia renal, por sua vez, ocorre quando os rins não conseguem mais produzir eritropoietina – hormônio que estimula a fabricação de glóbulos vermelhos na medula óssea. A deficiência pode resultar em problemas cardiovasculares, como o aumento do tamanho do coração, porque o órgão acelera seus batimentos na tentativa de compensar a baixa oxigenação de alguns tecidos do corpo.
Já a “glomerulonefrite”, ou nefrite crônica, como é mais conhecida, resulta de uma inflamação dos rins, que leva à falência do órgão se não for devidamente tratada ou controlada.
Terapias Disponíveis
Por não apresentar sintomas perceptíveis inicialmente, a DRC só é constatada depois que os rins perderam pelo menos 50% da capacidade de exercer suas funções, o que leva à necessidade de tratamentos difíceis, dolorosos e permanentes, exigindo infraestrutura nem sempre disponível.
Entre os tratamentos, estão a hemodiálise e a diálise peritoneal, além do recurso extremo do transplante renal.
De acordo com o censo da SBN, o número de pacientes em diálise no país cresceu 18,25% em um ano, passando de 73.605, em janeiro de 2007, para 87.044 em março de 2008.Estima-se ainda que um em cada dez brasileiros seja portador de algum tipo de doença renal ou algo em torno de 200 mil pessoas.
A hemodiálise, forma mais conhecida de tratamento quando o órgão já não consegue executar suas funções, utiliza uma membrana sintética para filtrar o sangue. Este procedimento contribui no controle da pressão arterial e mantém o equilíbrio de diversas substâncias químicas no corpo. As sessões de hemodiálise são geralmente realizadas três vezes por semana, com duração de quatro horas.
A diálise peritoneal é um procedimento que usa o revestimento abdominal (membrana peritoneal) para substituir o trabalho de filtragem dos rins. Existem duas modalidades dessa técnica: uma realizada durante o dia, com quatro trocas diárias, em média, e outra feita durante a noite com o auxílio de um equipamento que permite a diálise peritoneal automatizada.
Segundo o nefrologista Hugo Abensur, coordenador do programa de diálise peritoneal do Hospital das Clínicas e um dos diretores da Sociedade de Nefrologia do Estado de São Paulo (Sonesp), essa forma de tratamento proporciona grandes benefícios e liberdade ao paciente, além de se apresentar como alternativa nas regiões que não dispõem dos equipamentos de hemodiálise.
'Além de ser bastante segura, ela permite que os pacientes mantenham suas atividades normais e é especialmente indicada para crianças e pessoas com dificuldades de locomoção ou que vivem distante das clínicas de hemodiálise', afirma o médico.
No caso do transplante renal, o Hospital do Rim e Hipertensão ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de realização da cirurgia utilizada como forma de garantir melhores condições de vida para o paciente renal crônico. Funcionando em São Paulo desde 1998, a instituição é ligada à Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina e administrada pela Fundação Oswaldo Ramos, uma das pioneiras na técnica que começou a ser realizada no Brasil em 1976.
Com uma média de aproximadamente 550 transplantes renais por ano, o hospital conta com equipamentos, profissionais e um sistema eficiente de captação de órgãos, que já permitem a realização de até seis cirurgias por dia. Só em 2008 foram realizados 728 transplantes nesse hospital, sendo mais de 400 intervivos e tendo como doadores, na grande maioria das vezes, parentes próximos do paciente. Essa tendência se explica, pois, além da compatibilidade, a retirada de um órgão exige do doador grande espírito de solidariedade, já que vai passar o resto de sua existência com apenas um rim. O índice de 90% de cirurgias bem-sucedidas entre irmãos, no entanto, justifica a prática. Mesmo assim, anualmente é registrado um déficit de quatro mil cirurgias na fila de transplante, em todo o País.
Fonte: Revista da Abramge-mg ANO II N.° 06 JUL/AGO/SET 2009