Ao contrário das mulheres, que começam a frequentar o ginecologista no início da vida sexual, os homens costumam associar médico a doença e raramente adotam hábitos preventivos. Com isso, doenças masculinas relativamente comuns só são diagnosticadas quando começam a incomodar.
O câncer de próstata, por exemplo, tem exame associado ao constrangimento do toque retal e, embora recomendado a partir dos 40 anos, ainda é difícil encontrar pacientes que procurem o médico espontaneamente para verificar se existe alguma alteração nessa glândula masculina.
Como na maioria das doenças, a demora do diagnóstico pode comprometer todo o tratamento e, nos casos de câncer da próstata ou dos testículos, é possível resultar em esterilidade e impotência. Mas, ao contrário do que já é comum para a população feminina, o Brasil ainda não dispõe de políticas públicas voltadas para a saúde do homem, restringindo-se a campanhas específicas e esporádicas. Apenas em 2008 o assunto ganhou corpo no Ministério da Saúde, em resposta à pressão da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), que defende a criação de um setor específico dedicado a ações preventivas para a população masculina no Sistema Único de Saúde (SUS).
A iniciativa se justifica, pois levantamento recente do Ministério da Saúde indica que, a cada oito consultas ginecológicas, é registrada apenas uma consulta urológica, na rede do SUS. Estudos mais abrangentes mostram, também, que após 40 anos as principais causas de mortalidade masculina são as doenças do coração e os tumores de pulmão e próstata, só perdendo para as causas externas, como violência ou acidentes.
Em São Paulo há cerca de um ano começou a funcionar o Hospital do Homem, um setor do Hospital do Servidor Público Estadual que já é referência no tratamento de câncer de próstata e de hiperplasia prostática benigna (HPB). Segundo o médico Marcelo Pittelli Turco, chefe do grupo de disfunção miccional, o hospital registra uma média de mil atendimentos e 120 cirurgias mensais.
Mas, apesar de integrar o SUS e estar disponível para os pacientes de diferentes regiões do País, o número de atendimentos ainda está muito abaixo de sua capacidade. O serviço inclui procedimentos comuns, como extração de cálculos renais, ou mesmo colocação de prótese peniana, em casos mais graves de disfunção erétil.
Desinformação e Impotência
A disfunção erétil pode ter várias causas, “mas em geral é decorrente de uma soma de fatores físicos e psicológicos, que impedem ou dificultam a relação sexual”, explica Pittelli. Até os 40 anos, 80% dos casos têm origem psicológica e a mesma proporção é atribuída a distúrbios orgânicos nos homens com mais de 50 anos. Nessa faixa, a impotência está relacionada a doenças hormonais (diabetes, queda de testosterona, problemas endócrinos), neurológicas (lesões na medula, mal de Alzheimer e doença de Parkinson) ou vasculares hipertensão arterial, arteriosclerose).
Além das doenças que resultam na disfunção erétil, outras moléstias podem interferir no desempenho sexual masculino. É o caso da hidroceles, varicoceles e fimose – visíveis externamente. A hidroceles, ou o acúmulo de líquido entre uma membrana e os testículos, resulta no inchaço da bolsa escrotal e no desconforto ou constrangimento do homem. Mas o inchaço pode também esconder a formação de um tumor nos testículos, facilmente detectado já no exame clínico.
Varicoceles são varizes no escroto, que prejudicam a circulação sanguínea, provocam o aumento da temperatura no local e podem afetar a produção de espermatozoides, além de causar dor e desconforto. O problema pode ser amenizado com o uso de um suspensório ou eliminado, com a realização de cirurgia.
O procedimento cirúrgico também é indicado no caso da fimose, ou excesso de pele que cobre a glande (prepúcio). A remoção é mais fácil e menos dolorosa na infância, mas também é indicada quando interfere nas atividades sexuais, além de facilitar a higiene íntima.
Alguns pesquisadores relacionam a ausência da fimose com a menor possibilidade de contaminação pelos vírus HIV, da Aids, e HPV, responsável por alguns tipos de câncer.
Uma pesquisa realizada pelo Hospital das Clínicas em parceria com a Fiocruz, há cerca de uma década, mostrou que 54% dos brasileiros sofriam de algum problema de ereção e estimou a incidência de um milhão de novos casos por ano. A pesquisa também indicou que o doente demorava, em média, dois anos e três meses para procurar ajuda médica.
Esse descuido com a saúde é mais grave nos casos de câncer da próstata, que, quando diagnosticado no início, tem 90% de chances de cura. A informação é do médico José Travassos, diretor clínico do Instituto de Urologia Santa Rita, em São Paulo, e membro da Écòle Europeènne de Cirurgie, para quem felizmente a resistência ao exame clínico vem caindo entre seus pacientes.
Segundo Travassos , é cada vez mais comum que procurem estabelecer uma rotina preventiva, que inclui exames de PSA (proteína que indica alterações na próstata) e toque retal.
Ele explica que o procedimento é importante também para detectar outras moléstias masculinas, como prostatite ou inflamação da próstata e HPB, que provoca desenvolvimento anormal da próstata e pode afetar as atividades normais do organismo.
Nos casos em que o câncer já se instalou, o tratamento pode afetar o desempenho sexual ou a capacidade reprodutiva do paciente, “mas essas alterações desaparecem com o fim do tratamento”, tranqüiliza o médico.
A tendência a desenvolver esse tipo de tumor é maior entre os homens com histórico na família, incluindo o câncer de mama feminino.
Nesses casos, são recomendados exames preventivos já a partir dos 40 anos. A partir dos 45 anos, o exame é recomendado para todos os homens. A incidência do câncer de próstata varia geograficamente, como mostram levantamentos realizados em diferentes partes do mundo: a cada 100 mil habitantes registram-se 0,8% de ocorrências por ano em Xangai (China), 100
novos casos em Atlanta (EUA) e 22 em São Paulo.
Fonte: Revista da Abramge-mg ANO II N.° 06 JUL/AGO/SET 2009